A História de Marcos...


Uma noite mais além
Por: João Batista Sobrinho

Capítulo 1

Em casa de Marcos.

- Mãe cheguei! – Gritou Marcos enquanto jogava a bolsa escolar em um canto da sala e se dirigia a geladeira de onde pegou uma garrafa com água.

- Não encha a barriga de água, Marcos, - falou a mãe que estava na cozinha – porque o jantar está quase pronto e você vai perder o apetite. – Justificou. – Como foi na escola hoje?

- O mesmo de sempre, né mãe... a mesma baboseira, a mesma chatice e os mesmos professores babacas que não largam do meu pé. – falou irritado o menino

- Foi bom você falar nisso, querido, eu estava realmente querendo conversar com você. – Sentou a mãe e fez um gesto carinhoso para que o garoto sentasse também. – Você sabe que eu sou sua amiga, não sabe? – Marcos a olhava como quem está com pressa e quer ir embora, obviamente sem se sentir a vontade com a conversa.

- Sei. – respondeu seco e rápido

- Então você sabe que pode se abrir comigo, não é meu anjo? Eu tenho andado preocupada com você, Marcos, suas notas estão caindo e os seus professores estão conversando comigo para saber o que está acontecendo. – o menino virou o rosto com irritação e a mãe o puxou gentilmente. – olhe para mim, Marcos, eu quero conversar com você – deu-lhe um cheiro no rosto e disse:

- Marcos, meu filho, você bebeu? Estou sentindo cheiro de bebida em você.

- Bebi mãe, Bebi! Fiquei com uns caras da escola depois da aula e a gente foi dar um rolé. Ah – disse como quem quer desconversar – Amanhã tem rave e eu vou com a galera, falou? Deixa algum dinheiro pra mim que eu tô duro.

- Marcos eu já te disse que isso não está certo, filho, estas festas e você voltando só no outro dia cheirando a bebida; e ainda tem estes seus amigos... não sei não, Marcos... precisamos conversar sério sobre isso, meu filho.

- Mas eu não quero conversar sobre isso de novo mãe! Já disse que não tem nada de errado comigo. Nada! - bradou o menino irritado.

Neste mesmo instante, e sem que ambos pudessem ver, um senhor que havia acompanhado a conversa desde o início, principalmente porque havia sido a causa da mesma, pois momentos antes de Marcos entrar em casa o senhor, que já estava lá, havia inspirado estes pensamentos à sua mãe, saiu do canto da cozinha e se aproximou de Marcos, pousando gentilmente as mãos nos ombros do garoto aplicando-lhe fluidos tranquilizadores, o que fez com que Marcos se sentisse mais calmo, pois singelamente a presença daquele espírito foi despertando lembranças do seu avô, e estas lembranças sempre eram agradáveis.

- Marcos – falou a mãe – eu venho percebendo que desde o desencarne do seu avô você está mais irritado, menos tranqüilo... meu filho, nós temos que aceitar este fato e seguir em frente.
- É fácil falar! – Disse o garoto com ar triste e saudoso - Até parece que a senhora não sente falta dele.
- Querido, eu sei o quanto seu avô era importante para você. Sei que ele foi, na verdade, o único pai que você conheceu – explicou a mãe – E você sabe que quando engravidei e fiquei só, ainda muito moça, ele foi o único que me amparou e me recolheu, me deu forças para seguir e até registrou você.
- E então, por isso mesmo, nem parece que a senhora gosta dele!
- Marcos, querido, não é assim. Você está se esquecendo que nós espíritas temos uma visão diferenciada da morte física? O que eu acredito é que seu avô está muito bem em algum lugar e trabalhando pelo bem de todos nós, como ele sempre fez enquanto estava conosco; ou você está esquecido que ele foi trabalhador do centro durante mais de quarenta anos?
- Não, não esqueci não. E é exatamente por isso que estou decepcionado... não é possível que ele tenha passado tanto tempo no centro, fazendo tanta coisa, e nem possa dar uma mensagem pra gente... puxa mãe, é injusto! Já nem sei se acredito neste papo de vida após a morte e de reencarnação. Cadê ele? Porque não fala comigo?

Pascoal, o Avô desencarnado de Marcos, que acompanha ativamente o diálogo, agora estava próximo à mãe do garoto, inspirando nela as respostas mais coerentes a dar para Marcos, pois ele sabia que o garoto estava caminhando por uma linha muito tênue, e que estava a um passo de tomar decisões terríveis para o seu futuro.

Por este motivo, Pascoal, depois do seu desencarne e após ser auxiliado na colônia espiritual Alta Paz, a que o seu centro estava ligado, foi esclarecido sobre compromissos assumidos por Marcos, ainda no plano espiritual, e que seriam executados nesta encarnação através de trabalho reparador em benefício dos necessitados encarnados e desencarnados.

O Jovem, porém, com o impacto da perda do avô, havia se afastado de suas atividades no centro tanto quanto dos estudos e da prática da oração. Preocupado com o caminho a que estas atitudes podiam levar, Pascoal solicitou que pudesse retornar à sua casa e tentar inspirar o neto a retomar o seu caminho espiritual.

- Meu amor – falou a mãe em tom carinhoso – é claro que seu avô está bem e nos ajudando... se ele não se comunicou ainda é porque não pôde. Você não sabe que os espíritos evangelizados têm uma ordem e que só fazem determinadas coisas quando são autorizados? Fique tranqüilo meu bem.
- Fique tranqüilo... fique tranqüilo... você só sabe falar isso mãe. – Falou irritado.
- Marcos, porque você não volta a participar das reuniões do centro, hein? O pessoal de lá está sentindo sua falta. Seus amigos estão com saudade. – Aquietou a mãe – Que tal nós dois irmos amanhã de noite, meu filho? Lembra que amanhã é dia de reunião? Vamos?
- Não, não vou não. – falou com firmeza – Tudo que eu vi lá não me adiantou de nada! Não tem espíritos, não tem reencarnação, não tem caridade, não tem nada! E quer saber de uma coisa? Vou para o meu quarto! Cansei de você! Cansei!.... – Gritou e foi embora da cozinha deixando a mãe e o avô tristes e meneando a cabeça, sem saber como proceder.

Maria, a mãe de Marcos, reconfortada por Pascoal mesmo sem perceber, terminou de jantar, recolheu os pratos, a comida e se retirou da cozinha ainda abalada com o que estava acontecendo com o filho. Preocupada, antes de sair ainda ergueu os olhos para cima, como quem faz uma ligeira prece.

Só, na cozinha, Pascoal concentrou-se, uniu as mãos em oração e abriu o seu coração para Deus, dizendo:
- Senhor, Venho, na qualidade de servo humilde, te rogar forças para esta família; te rogar apoio para estas pessoas; te rogar inspiração para este trabalhador. Bem sei que estamos todos em aprendizado nesta vida, Pai, e que de ambos os lados podemos encontrar oportunidades maravilhosas de testemunhar o teu amor. Muitas vezes, porém, somos cegados pela imaturidade e pelo esquecimento de nosso caminho; tolhidos pelo turbilhão das provas redentoras tantas vezes caímos e sofremos ainda mais por estarmos caídos. Mas este ainda não é o caso aqui, Pai. Mesmo passados alguns meses em que tenho me dedicado diariamente ao alívio redentor, ainda restam forças aos que hoje te pedem auxílio para evitar cair em erros e ainda restam oportunidades para que possamos juntos retornar ao caminho correto de teus ensinamentos. Talvez, porém, esta seja uma tarefa ainda muito complexa para este que te fala, pois este simples colaborador ainda tem muito a aprender... Sendo assim, Senhor, te solicito humildemente ajuda. Te solicito que, caso seja de meu merecimento e de merecimento do nosso Marcos, tu possas, em tua bondade infinita, enviar um irmão mais capacitado no teu amor para nos auxiliar. E que, se mesmo assim não for possível, ó Pai, seja feita então a vossa vontade. Que assim seja!

Ao terminar sua prece, com lágrimas nos olhos, o velho trabalhador do Cristo percebe ao seu lado o aparecimento de um dos amigos espirituais que o orientaram na colônia Alta Paz. O Espírito, de um brilho intenso e tranqüilo, tinha a pele negra, uma veste branca simples: camisa e calça que lembravam as roupas vestidas pelos antigos escravos nas senzalas, andava descalço e sem pressa, e com olhos que pareciam de um sonhador falou mansamente para Pascoal:
-Tem fé, Pascoal. Tuas preces foram atendidas.


---


Trancado no seu quarto, deitado em sua cama, Marcos escutava algo muito barulhento nos fones de ouvido do seu MP3 player e assistia TV ao mesmo tempo. Inquieto mudava de canal sem parar, como quem não consegue se concentrar em nada, ansioso por algo que não sabe o que é.

Sem que ele perceba adentram no seu quarto duas entidades, o seu avô e o Amigo Espiritual. Durante alguns minutos eles ficam a fitar Marcos, observando seus movimentos e sondando seus pensamentos, até que o Amigo Espiritual faz um gesto para que Pascoal se aproxime de Marcos.

Inconscientemente sentindo a aproximação do avô Marcos vai diminuindo o ritmo de seus movimentos e da mudança de canal na tv, até que encontra algo que o agrada e começa a prestar atenção no programa.

Após algum tempo assistindo a tv desliga o seu MP3 player, se recosta confortavelmente e, pensativo, fala para si mesmo.

- Droga, não devia ter brigado com a minha mãe. Ela não tem culpa, não foi ela que matou meu avô; nem foi ela que me fez tirar nota baixa na prova de hoje. Droga! Eu sou um tapado mesmo! E agora nem pra pedir desculpas eu presto. Droga! – Marcos aparentava estar mais triste do que irritado, certamente cheio de remorso pelo modo como tratou sua mãe e repleto de orgulho para admitir o seu erro.

Neste momento o avô senta na cama e o abraça ternamente. Ele parece sentir algo diferente, de seus olhos caem algumas lágrimas e ele abstrai novamente:
- Ah, vovô... o senhor faz tanta falta! Cadê o senhor para me ensinar as coisas, cadê o senhor para me cobrar o dever de casa ou mandar eu estudar para as provas? – e sem perceber que o avô estava no quarto, ele continua falando de si para consigo mesmo - Lembra como a gente se divertia quando ia viajar? E quando ia para o sítio? Eu tenho tentado substituir você, sabe? Encontrei uns caras novos que me mostraram algumas coisas e tal... São até divertidos e estão me levando para umas festas onde rola de tudo... Mas vou te contar a verdade: Ninguém é igual a você! – Ao lado de Marcos o avô chorava, abraçado ao neto, sem poder no momento se comunicar com ele.

Após algum tempo o Amigo Espiritual se aproxima e faz sinal para que Pascoal se afaste um pouco, coloca então suas mãos sobre a cabeça de Marcos, como que aplicando-lhe um passe, e em poucos momentos o garoto se encontra sonolento e resolve se deitar para dormir.

Após Marcos se ajeitar confortável na cama, o Amigo Espiritual senta ao seu lado e coloca a mão sobre a cabeça do garoto. De sua mão sai uma energia clara e delicada que envolve todo o crânio de Marcos e neste momento o sono vem.

(continua na próxima semana...)

Um comentário:

Socorro Melo disse...

Emocionante. Confesso que chorei (rs).Vou continuar lendo.


Socorro Melo

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