A História de Marcos...


Capítulo 3

No outro lado.

Aos poucos a escuridão foi desaparecendo; algumas luzes piscavam ao seu redor, mas muito embaçadas ainda para saber o que eram. Algumas vozes podiam ser ouvidas , mas sem poderem ser compreendidas ainda. Sua cabeça girava e seu corpo todo doía, principalmente a sua barriga e o peito. Respirava, mas ardia muito a respiração e só então ele pode perceber que, sem saber como, estava em pé e vagueando por entre as luzes e sons que ainda não podia discernir.

Sentiu-se fraco e caiu sentado no chão duro, o impacto fez com que seu corpo doesse mais e ele sentiu suas mãos arranharem-se no asfalto. Percebeu então que estava em uma rodovia e instintivamente se perguntou – Como vim parar aqui? O que está acontecendo?

Sua visão agora estava clareando e ele conseguia perceber formas se movendo entre as luzes, pareciam pessoas que andavam de um lado para outro enquanto as luzes piscavam em um ritmo frenético, alucinante; as luzes e o ritmo das pessoas trouxe como um flash a lembrança da festa de onde ele havia saído há pouco. Viu rapidamente alguns lances de dança e bebida da festa, a presença do amigo Mateus, Antônio e Bodão dormindo no banco de trás do carro,e pensou: - Carro... Eu estava num carro. O carro de Mateus... onde está Mateus? Onde estou eu?

Não lembrava com clareza o que havia acontecido ou onde estava, tudo vinha em flashes em sua mente e essas imagens não eram claras o suficiente para que ele conseguisse entender o que se passava.

Seus olhos agora estavam mais claros, enxergava melhor e já podia verificar as pessoas com certa nitidez; viu algumas pessoas que, pareciam ser policiais, perto de um objeto grande e amassado; um pouco mais além percebeu que as luzes que brilhavam freneticamente vinham de um veículo branco onde um pequeno grupo de pessoas estava bastante agitado se movendo em torno de algo.

Levantou-se e foi cambaleando ainda até o local onde as pessoas estavam agitadas, percebeu que eles estavam sobre uma figura humana – São enfermeiros – Pensou – Que bom. Vão poder me ajudar.

Aproximou-se mais e falou:
- Ei, eu preciso de ajuda! – esperou que algum deles se virasse e viesse auxiliá-lo, porém ninguém se moveu de onde estava – Ei! – Gritou – Socorro! – Eu estou machucado! – Aguardou um pouco e novamente não conseguiu a atenção de ninguém. – Devem estar muito ocupados socorrendo alguém, vou falar com os policiais para ver o que está acontecendo. – decidiu.

Virou-se com certa dificuldade, devido ao corpo dolorido, e encaminhou-se até o ponto onde havia visto os policiais. Eles estavam ao redor de um corpo estendido no asfalto – Meu Deus! – Exclamou Marcos – Deve ter sido um acidente feio. Será que eu fui atingido também? – Aproximou-se de um dos policiais e disse: Seu guarda, por favor, eu estou ferido. – E aguardou o policial se virar para atendê-lo, o que não aconteceu. – Seu guarda! Por favor, eu estou falando com o senhor! – Falou mais alto, porém ainda sem conseguir a atenção do policial.

Ficou irritado e gritou: Estou falando com você, policial, será que dá pra parar de olhar pra este corpo e me ouvir? – Neste momento ele olhou instintivamente para o corpo descoberto no chão e teve um choque – Antônio? – Gritou Assustado – Meu Deus, Antônio... – Voltou-se desesperado para onde os enfermeiros socorriam outro jovem e estarrecido constatou que era Bodão que estava sendo socorrido.

Marcos ficou tonto e caiu no chão. Sua cabeça doía e girava, ele não conseguia se firmar nas próprias pernas – Meu Deus! - Exclamou. –Agora eu me lembro! O que foi que eu fiz? Oh, meu Deus, o que foi que eu fiz? – As imagens agora chegavam a sua cabeça como pancadas de um martelo, doía muito e elas não paravam de chegar. Via todos os momentos do infeliz acidente. Desde o carro voando sobre o asfalto e batendo várias vezes contra o chão, lembrava de ver os amigos sendo jogados de um lado para outro dentro do veículo, lembrou que em um momento percebeu um corpo ser jogado fora do carro, caindo no chão. – Meu Deus! – Gritou Desesperado – Mateus... cadê Mateus??? – Ergueu-se rápido, sem se importar com as dores que sentia, e saiu em busca do amigo. Correndo os olhos ao seu redor percebeu uma luminosidade mais além do carro batido, depois de onde se encontravam os policiais.

Era uma luz branda, limpa e quase angelical. Estava saindo de algum lugar e pousando sobre um corpo que estava no chão, coberto por um lençol. Pelo tênis que estava amostra do lado de fora Marcos percebeu que se tratava realmente de Mateus. Lágrimas corriam por sua face enquanto ele corria para junto do corpo do amigo.

- Mateus – Gritou Marcos enquanto se ajoelhava e abraçava o corpo do amigo – Me desculpa cara. Eu não queria que isso acontecesse. Não era pra ninguém morrer... – Chorava desesperado e tomado por uma culpa profunda. – Ah, meu Deus, porque não fui eu que morri, então? Quem fez besteira fui eu! Era para eu ter morrido e não o Mateus... Ele não fez nada! Era um cara bom. Só estava tentando me ajudar. – Chorava Marcos abraçado ao corpo do amigo.

Sem que Marcos percebesse, pois estava de cabeça abaixada e colada sobre o corpo no chão, a luz que antes era branda e tênue foi ficando cada vez mais forte e intensa. Aos poucos, à frente do corpo que estava no asfalto, foram se formando duas figuras humanas e logo apareceram Mateus e o Amigo Espiritual. Olhando para o desespero de Marcos, Mateus, em espírito, sentiu compaixão e falou suavemente:
- Marcos... Marcos eu estou aqui.
- Hã? – soluçou Marcos assustado e levantando a cabeça imediatamente. – O quê...? - e antes que pudesse falar algo mais Mateus interrompeu.
- Não, não se assuste. Sou eu Mesmo: Mateus. – Disse tranqüilamente –Estou bem.
- Como ? – disse Marcos – Você morreu, seu corpo está aqui.
- É verdade. – Respondeu Mateus com uma calma invulgar - Meu corpo morreu devido ao acidente, mas eu estou bem. Continuo vivo, Marcos, mas agora no mundo espiritual.
- Não pode ser! – Disse Marcos, esfregando os olhos, pensando se tratar de uma ilusão. – Não pode ser. E você não está sentindo nada? Não está doendo? Não está triste?
- Não posso dizer que não estou triste. Certamente que para mim foi uma coisa muito rápida e inesperada, porém sei que não foi sem causa e também sei que é o melhor para mim neste momento. Quanto a estar sentindo dor ou machucado, pode descansar. Não estou sentindo nada. Estou inclusive melhor do que estava quando encarnado.
- Como é possível? – perguntou Marcos atônito – Eu não compreendo.
- Alguns segundos antes do acidente este meu amigo, que veio da colônia Alta Paz, estava já conosco no carro. - Disse Mateus apontando para o Amigo Espiritual que durante toda a conversa estava um pouco atrás dos jovens – Na hora do impacto ele me ajudou muito. Lançou sobre mim sua energia fluídica e me deixou inconsciente durante todo o acidente. Não sentí nem ví nada. Após o acontecido ele mesmo me auxiliou a despertar no mundo espiritual aplicando-me passes tranqüilizadores e restauradores; também cuidou para que acontecesse a separação entre o meu espírito e meu corpo físico sem maiores problemas e me informou de maneira tranqüila o que havia acontecido.
- E você fala isso assim, nessa naturalidade? – Perguntou Marcos como que indignado
- Marcos, meu amigo, essa tranqüilidade vem do estudo e trabalho realizados nestes anos em que adotei a Doutrina Espírita como minha religião, você sabe que trabalhei muito com minha mediunidade tentando auxiliar os sofredores e ensinar-lhes o caminho com Jesus. A Doutrina Espírita nos mostra, conscientiza e prepara para os vários caminhos que possamos encontrar em nossa vida. Principalmente nos explicando que a morte não é o fim; pelo contrário é a libertação do espírito que estava aprisionado em um corpo de carne e que agora pode retornar, sem fronteiras, ao seu verdadeiro lar: a Pátria Espiritual. – Silenciosamente o Amigo Espiritual se aproxima de Mateus e discretamente fala algo em seu ouvido. – Bem, Marcos, tenho que ir agora. Já não posso mais permanecer com você. Posso apenas te dizer umas últimas palavras: Tenha cuidado com suas escolhas. Muita paz meu amigo. E da mesma maneira que as duas entidades apareceram foram desaparecendo aos poucos e logo depois a luz que as alimentava também sumiu.

- Espera! – Gritou Marcos.- Espera Mateus, não vá embora. Não me deixa, cara! – Mas era em vão. A medida que os gritos de Marcos desapareciam na noite também desapareciam as duas entidades. Contrariado e novamente irritado Marcos gritou – Espírito burro. Era pra você ficar aqui. Não era pra morrer, droga! – E se deu conta imediatamente do que estava falando – Peraí, eu disse Espírito? Mas eu não vejo espíritos, eu não sou médium. – Falou assustado - Será que eu... – Não teve coragem de terminar a frase. Imediatamente correu para perto do carro onde estava os policiais e falou:

- Ei! Alguém aí! Eu estou aqui, me ajudem! – balançava os braços em frente às pessoas e ninguém percebia sua presença. – Não é possível – Gritou. - Eu não estou morto. Eu estou sentindo tudo. Meu peito está doendo, eu estou respirando, até cair no chão eu caí. Eu não estou morto. – Gritava desesperado enquanto andava próximo ao carro. Sem perceber foi se encaminhando para o mesmo local onde havia visto o corpo de Antônio e sem querer tropeça nele. Ao tropeçar cai por sobre outro corpo que estava um pouco mais adiante, coberto sobre os asfalto, e percebe, para o seu desespero, que, pelos sapatos e um pedaço da camisa que estavam à mostra, era o seu próprio corpo.

- Nããããooooo!!!!! – Gritou alucinado – Não é verdade! Eu estou vivo! – E saiu assustado se arrastando para próximo aos enfermeiros dizendo baixinho, como que tentando se convencer do fato: Estou vivo! Estou vivo! Estou ....

Ao se aproximar do pequeno grupo, porém, escutou um dos homens comentando:

- Rapaz, este foi um dos acidentes mais feios que já vi. E olha que já vi muitos, hein? Este cara aqui, por exemplo, - Disse apontando para Bodão que estava sobre a maca – eu mesmo acharia melhor se ele tivesse morrido com os outros três. É melhor embarcar logo do que quebrar o pescoço e ficar sem controlar os movimentos do corpo, não é? – os outros expressavam suas opiniões, mas Marcos já não escutava mais nada, estava em um canto próximo, assustado e sentindo-se o único culpado de toda aquela situação.

Sem que ele percebesse, por trás de sua pessoa, as duas entidades reapareceram, porém desta vez não se fizeram visíveis a Marcos, que não podia ver nem sentir o abraço carinhoso que o amigo Mateus dava nele, como que querendo ampará-lo, enquanto ele permanecia parado, sentando no chão, abraçando os próprios joelhos e repetindo baixo para si mesmo: Eu estou vivo! Eu estou vivo...


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