A História de Marcos...


Capítulo 4

É tudo verdade!


Marcos estava só. Sentado no meio da estrada, alheio a tudo à sua volta apenas repetia a pequena frase sem cessar, abraçado aos joelhos e balançando o corpo para frente e para trás. Não podia ainda perceber o abraço carinhoso do amigo Mateus que o amparava enviando boas vibrações para que ele se acalmasse mais um pouco.

As pessoas do grupo de resgate e os policiais já haviam partido há algum tempo. Levaram os corpos e os destroços do carro. O garoto que ainda estava vivo quando chegaram foi socorrido e levado para um hospital da cidade onde receberia maiores cuidados, mas, independente de que cuidados e tratamentos recebesse, sua paralisia nos membros era um fato. Ele havia quebrado o pescoço durante o acidente e perdera completamente o controle sobre o movimento do corpo.

As imagens do acidente, a visão dos amigos mortos, a consciência que era o responsável pelo estado de Bodão e os sentimentos de perda, culpa e dor não saiam da cabeça de Marcos, agora não conseguia perceber mais nada à sua volta, cristalizado nestes sentimentos.

O Amigo Espiritual, que acompanhava Mateus naquele momento, percebendo que não havia muito a ser feito por Marcos, enquanto estivesse naquela situação mental, interveio e, silenciosamente, chamou Mateus a se retirarem.

Mateus compreendeu o que se passava e afastou-se de Marcos lentamente. Aos poucos as duas entidades desapareceram na escuridão da noite e Marcos finalmente estava só.

Passado Algum tempo, Marcos de repente escuta uma voz que parece vir de todos os lados ao mesmo tempo. É impossível distinguir sua origem, apenas uma voz forte e seca, com um carregado sotaque nordestino, que diz:

- Eita que eu pensei que ele não ia ficar sozinho mais não. Não é Marcos? Aquele teu amigo quase não vai embora, mas agora você está sozinho, menino. – Assustado Marcos procurava em vão a fonte da voz e não conseguia encontrar, olhando para todos os lados apenas escutava. – Se preocupe não, que eu vou lhe ajudar. Fique comigo que você não vai perder nada!
- Quem está aí? – Disse Marcos assustado – Quem é? Apareça! – Falou sem muita convicção, ainda temeroso do que poderia aparecer.
- Se assuste não. – Disse a voz – Eu sou seu amigo. – E aos poucos, da escuridão, começaram a aparecer duas entidades em roupas escuras, envoltas em sombras e com aspecto grosseiro. Marcos, recuando um pouco, pôde apenas assistir, enquanto os dois espíritos se aproximavam cada vez mais, até que, chegando bem próximo ao jovem, um deles se abaixou um pouco e colocou seu rosto próximo ao de Marcos, que assustado tremia. O espírito respirou fundo e, após absorver o ar, ergueu-se com aspecto triunfante dizendo:
– Eita que o cabra está morrendo de medo de mim. – Marcos percebeu que era a voz que havia falado com ele, mas antes que pudesse pensar em mais alguma coisa o Espírito soltou uma gargalhada que fez com que Marcos se encolhesse ainda mais, e a outra entidade também começou a rir.

- Eu me chamo Tertuliano! – Disse o primeiro espírito – E eu era o jagunço mais valente que Coronel Salustiano tinha, enquanto eu era vivo. Essas mãos – e mostrou com rudeza as mãos para Marcos que se encolheu mais com medo – Já mataram mais de doze homens, tá vendo? – Marcos fez que sim com a cabeça – Foi de peixeira, de revolver e uns foi até só com as mãos mesmo. Você acredita? – Marcos concordou silenciosamente com a cabeça. – É bom mesmo! – Disse Tertuliano triunfante. – E depois que estou morto eu já trouxe pro lado de cá uns vinte. Olhaí o Joca, por exemplo. Disse apontando para o outro espírito que estava com ele.

Tertuliano aparentava ser um daqueles jagunços sertanejos. Trajado de maneira característica, tinha os trejeitos e a fala de quem viveu no interior por muitos anos. Austero e rude em seus modos era o chefe daquela estranha dupla; Joca, por sua vez, era uma figura aparentemente oposta ao companheiro. Trajando terno e gravata, tinha o aspecto refinado de quem é um executivo de alguma empresa importante; e até quando se expressava podia ser notada facilmente a diferença entre os dois.

Controlando um pouco o seu medo, mas ainda não totalmente desprovido dele Marcos tomou coragem e perguntou:
- O que é que tem ele? – E apontou para joca
- Ele é um dos cabras que eu trouxe pra cá, pra ficar junto de mim.
- Mas como foi isso? Como é que você sendo espírito pôde trazer um vivo para aqui? – Perguntou Marcos ainda com um pouco de medo
- É mais fácil do que parece, menino. – Disse Tertuliano – Joca trabalhava numa empresa grande, era novo e queria ficar rico. Eu estava andando por aí e senti estas coisas nele. Percebi que a gente era parecido e fiquei grudado nele desde então.
- Meu Deus! É a lei de sintonia – Disse Marcos como que pensando alto
- Depois de um tempo ele começou a ouvir as coisas que eu dizia pra ele fazer e foi ganhando mais dinheiro cada vez que fazia o que eu mandava. Esse cabra ia ficar rico. – Joca apenas concordava balançando a cabeça cada vez que Tertuliano falava.
- Até que um dia, - continuou Tertuliano – um tempo depois que eu tinha dado um jeito pro chefe dele morrer e ele ficar no lugar dele, esse triste se matou. Disse que tava com a consciência pesada, já pensou? Cabra mole da peste! – falou dando um tapa na cabeça de Joca. – Mole e Burro! – Empurrou Joca para longe – A gente podia estar muito bem com tudo que ele tinha: Carro, dinheiro, cachaça e mulher...
- E porque você fez tudo isso? – perguntou Marcos, já sem medo – Porque você quis ajudar ele?
- Você parece que é meio tapado também menino.- Respondeu sêco – quando eu estava vivo eu tinha tudo isso: Dinheiro, cachaça, mulher. Até que armaram uma tocaia pra mim e me mataram. Mas não tem nada não – Disse balançando as mãos em direção a Marcos – Quem mandou me matar não perde por esperar. Claro que eu queria tudo de novo, não é? – gritou com raiva – E esse tapado desse Joca podia ter me dado isso tudo de novo. Mas ficou com peninha do safado do chefe dele – Disse irônico – O safado só botava pra lascar nele, eu achei foi bom quebrar ele.
- Mas isso não está certo! – gritou Marcos
- Pronto, e agora você quer me dizer o que está certo? Logo você? Eu te conheço menino. Eu sei o que você fez. – gritou para Marcos, se aproximando do jovem para intimidá-lo. – Eu me lembro do que você fez. – Gritou – Quem é você pra dizer o que é certo?

Marcos, acoado no canto, apenas pôde baixar a cabeça, sentindo o peso da culpa e do remorso pelos atos que havia realizado nestes últimos meses após a morte de seu avô. Lembrava-se de todas as vezes que as pessoas chegaram perto para conversar com ele para alertá-lo dos erros que estava cometendo e ele não dava atenção. E errava mais.

- Eu tenho te acompanhado há muito tempo Marcos. – Disse Tertuliano – Desde o dia que você mandou me matar, seu safado.
- Mas eu nunca matei ninguém – Disse Marcos assustado – Eu nunca fiz mal a você.
- Não foi nesta vida não, seu cabra. Foi quando você era o Coronel Salustiano, seu burro. Você não se lembra não, mas eu lembro. Lembro de tudo.

Esta informação havia deixado Marcos perplexo, sem reação. Atordoado com o que acabava de escutar caiu no chão e balançava a cabeça negativamente sem silêncio sob o olhar raivoso de seu perseguidor. Joca andava de um lado para o outro, ao redor dos outros dois, dizendo irritantemente coisas como: tá vendo? Quem mandou? Pensa que é bonzinho é? Ui, agora você vai ver.

- Não é verdade – Disse Marcos – Eu não sou esse coronel não!
- Tá esquecido, né? – Disse Tertuliano – Pois eu vou refrescar sua memória, rapaz. Vou lhe dar um pouco da minha dor e do meu ódio. – e apontou as mãos para Marcos, jogando uma carga fluídica sobre sua cabeça, enviando sentimentos e emoções que tinha guardado dentro de seu coração há muitos anos.

A cabeça de Marcos doia e ele, desesperado, levou as mãos até ela, tentando segurar os pensamentos que chegavam insistentemente. – Não, não fui eu, - Marcos gritava –Não fui eu.

Após alguns segundos Tertuliano interrompe a irradiação mental e pergunta irritado:
- Tá vendo o que você mandou fazer comigo? Tá sentindo meu ódio? Pois bem, esse tempo todo eu tava procurando por você e não tinha achado. Aquele seu avô cuidava bem de você, menino. Ele levava você pro bom caminho e cuidava dos seus pensamentos. Mas quando ele morreu você deixou de seguir o que ele dizia e mostrou quem realmente você é. Aí eu pude sentir seus pensamentos e vi que era você mesmo. Depois de todos estes anos eu finalmente encontrei o senhor Coronel Salustiano.
- É, - disse Joca – Ainda bem que a gente tava perturbando aquele tal de Antônio, senão a gente ia demorar mais pra achar você, seu assassino.
- Não. – Gritou Marcos – Eu não sou Assassino. Isso não é verdade. - E correu para Joca jogando-o no chão. – Eu não sou assassino gritava enquanto batia no espírito.
- Você é assassino três vezes, Coronel. – Disse Tertuliano apontando a mão para Marcos, que parou e ficou a ouvi-lo. Tertuliano contava nos dedos enquanto falava – Uma vez pelos mandado que o senhor me dava e eu ia lá e matava os homens; duas vezes quando teve medo de mim porque achou que eu já estava ficando valente e sabia demais e mandou armar uma tocaia pra mim e me matou feito um cachorro.
- Mas eu não me lembro disso. – Disse Marcos – Não era eu, e mesmo se fosse nesta época eu era outra pessoa.
- Era outra pessoa, né? Pode até ser, Coronel. Mas e agora, na terceira vez, quem foi que matou seus amigos, hein?

A constatação bateu em Marcos como um tijolo em seu rosto, abismado ele levou a mão ao rosto e começou a chorar. – Mas eu não queria, não era pra acontecer isso – Dizia ele.

- Há, - ironizou Tertuliano – Agora é muito fácil dizer que não queria. Mas na hora que você puxou a direção do carro você só pensava em voltar pra sua festa e beber mais. É Coronel, antes era eu que obedecia o senhor, agora é o senhor que me obedece, tá vendo?

Espantado Marcos olha para Tertuliano e fala baixo – Foi você? Você me influenciou para fazer aquilo? Foi tudo culpa sua!

- Minha não. – Retrucou Tertuliano – Eu somente dei a idéia de voltar pra festa pra beber e se divertir, porque EU – disse com ênfase na palavra – estava querendo me divertir mais. Chupar a cachaça de dentro de você e dos seus amigos; Chupar a fumaça dos cigarros e até dar uma namoradinha depois. – Disse fazendo gestos como se estivesse inalando ou sugando as energias contaminadas pelo álcool e pelos vícios.

- Foi você! Você me fez perder tudo. Você é um vampiro daqueles que ficam sendo obsessores das pessoas. – Gritou Marcos – Porque você fez isso comigo? Porque? – Gritava desesperado.
- Porque você deixou! – Tertuliano gritou, essa foi a resposta sêca e dura que acordou Marcos para a realidade – Porque você permitiu que eu me aproximasse de você, Coronel. Querendo curtir sua vida você somente abriu as portas para que eu entrasse, e você estava gostando cada vez mais, me deixando no controle cada vez mais. Se você tivesse feito as coisas certas, continuado com aquela sua vida certinha eu nem podia chegar perto. Mas ainda bem que você se afastou daquele lugar espírita, quando você se afastou você chegou pra mim, não foi?
Marcos apenas chorava com as mãos no rosto, sucumbindo ante o peso da verdade. Sabia que o que estava sendo dito alí realmente era verdade. Todos o avisaram quanto ao rumo que estava dando a sua vida mas ele apenas se envolvia mais e mais com aqueles prazeres: O álcool, o fumo, as festas. Se afastara dos bons ensinamentos, das boas amizades e até da oração, Entrando em um círculo vicioso que não parecia ter limite ou fim, exceto aquele que ele vivenciava agora.

Tertuliano se afastou um pouco, como que vitorioso por haver levado Marcos até aquela situação de culpa. Apenas olhava de longe e saboreava aqueles momentos que esperara muitos anos para acontecer.

Joca ria muito e ficava dando cutucões em Marcos, que sem forças para se defender, apenas agitava os braços tentando afastar o espírito.
- Não foi fácil não, moleque – Disse Joca irônico - Aquele teu avô mesmo depois de morto dava trabalho pra gente.
- O Quê? Não fale do meu avô. – Gritou Marcos
-Tá defendendo ele, é? Devia ter pensado nisso quando ele ainda estava vivo ou então quando ele tentava se aproximar de você lá na sua casa, seu babaca. – Disse Joca.
- O que você está dizendo? – Marcos levantou a cabeça – Você está dizendo que ele estava lá em casa?
- O tempo todo seu idiota. E você nunca parou pra perceber. Porque você acha que a gente demorou tanto tempo pra poder te ferrar? Aquele idiota não deixava a gente entrar na tua casa. - gritou Joca dando empurrões em Marcos.
- Ele estava lá? Estava comigo? – Perguntou Marcos balançando a cabeça entristecido
- Claro que estava, seu babaca! Por isso que a gente só podia se aproximar de você na sua escola e nas festas. E que festas hein? – Joca cutucou Marcos. – Lembra como você bebia? Isso só te aproximava cada vez mais da gente, Mas aí quando você chegava em casa o velho tentava te ajudar através de tua mãe e atrapalhava o nosso trabalho. – Marcos apenas chorava, perdido sem saber o que fazer. – Ainda bem que você é igual aos outros jovens adolescentes de sua idade: Não escuta ninguém... É o dono do mundo, não é? – Gritou Joca – Pois bem, agora nós somos os donos do seu mundo – e gargalhou.
- Como é que é Joca? – Gritou Tertuliano enraivecido?
- O senhor chefe, o senhor é o dono do mundo dele, chefe. – falou Joca temeroso.
- Assim, sim. Assim tá bom. Vem pra cá Joca. – E ambos começaram a conversar em um canto deixando Marcos sozinho com suas lembranças. Como que pensando Alto ele falou:
- Meu Deus! Como eu fiz besteira, como eu prejudiquei tanta gente. O que é que eu vou fazer agora? Eu estou morto, mas eu estou vivo. Tudo aquilo que meu avô me dizia e que eu ví no centro é verdade. E agora? Estou sendo perseguido por estes dois Espíritos que são meus obsessores, Meu Deus o que eu vou fazer? – Olhava para cima como que procurando auxílio.
- Ferrei tudo, a culpa é só minha! Meu avô nunca me abandonou, eu pensei tudo errado. Burro que fui. Ele sempre tentou me ajudar e eu estava ocupado demais sentindo pena de mim mesmo ou então me prejudicando mais. Ah, meu Deus, quantas vezes minha mãe me avisou e tentou me ajudar... – Parou momentaneamente e caiu em prantos ao lembrar de sua mãe – Minha mãe... Meu Deus, minha mãe... como ela vai ficar sem mim? Ela deve estar sofrendo tanto, e a culpa é toda minha... – Chorava sem parar, caído no chão, assumindo instintivamente a posição fetal.

- Olhe aquilo Joca - falou Tertuliano com um tom de vencedor – aquilo é o que o povo chama de vingança. E começou agora. Esse infeliz vai ter muito que sofrer nas minhas mãos, você vai ver.
- Eu já estou vendo chefe. – Disse Joca – Eu já estou vendo.
- Depois de mais de oitenta anos eu achei este safado e tirei tudo dele. Tirei a vida e tirei a paz, porque fiz ele mesmo matar seus amigos. Eita, que isso deve doer lá no fundo do coração, de quem tem coração, porque eu não tenho mais não. O meu foi ele que tirou e agora eu vou tirar o dele todo dia mais um pouquinho, e olha que tem muito tempo pela frente pra eu fazer isso. - Falou pensativo, como que contemplando um futuro onde iria maltratar Marcos cada dia mais - Ele fez pra mim e agora tá me pagando cada centavo, não é assim que esse povo espírita diz?– Ironizou.
- Olha, chefe, na verdade não é bem assim que eles dizem não. – interferiu Joca.
- Tá me corrigindo seu cabra? – Gritou Tertuliando – É do jeito que eu quiser, porque aqui mando eu, tá me entendendo?
- Estou, chefe, estou. Desculpe – Recolheu-se Joca e ficou calado.

Marcos por sua vez continuava parado, deitado no chão e chorando; inundado do sentimento de perda e culpa, não se permitia sentir nada mais. A consciência culpada cobrava o preço pelos atos realizados impensadamente, pois, muito embora ele tivesse recebido a dádiva de uma nova encarnação, onde iria corrigir erros do passando auxiliando muitos daqueles a quem prejudicou, Marcos havia optado por continuar em uma vida de erros e sofrimento, trazidos a ele por suas próprias decisões.

- Eita, Joca, que me deu uma vontade danada de tomar uma! – Falou Tertuliano com alegria – Vamos voltar para aquela festa que agora eu vou pegar um daqueles meninos dalí e fazer o cabra beber até cair. Vou chupar a cachaça dele e depois vou procurar algum casal que esteja fazendo safadeza e vou dar uma namoradinha. Eita que vai ser uma noite daquelas.
- Chefe, e esse aí? – Disse Joca – apontando para Marcos chorando e caído no chão
- Se preocupe não. Esse aí agora só sai daí quando eu mandar. Ele tá tão triste e com uma culpa tão grande que não vai poder fazer nada por um tempo danado. Agora ele é meu. E eu não vou deixar ele sair desse jeito não. Já botei ele na coleira pra quando eu quiser judiar dele. Vem, vambora. – E puxou Joca pelo braço, se afastando de Marcos e tomando a direção da festa.

Marcos, envolvido em sua tristeza e culpa profundas, não percebeu a ausência dos dois e permaneceu imóvel alheio a realidade a sua volta, e, sem querer reagir, deixou a escuridão se aproximar novamente, envolvendo-o completamente.



Um comentário:

Socorro Melo disse...

Forte. Intenso mesmo este capítulo. E que figura o Tertuliano, hein?

Socorro Melo

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