A História de Marcos...


Capítulo 5

Mais além.

Marcos acordou-se com um grito muito forte e, sem saber porque, já estava em pé do lado de fora de sua cama. Instintivamente passou a mão pelo corpo todo, o peito a barriga, a cabeça, não estava mais doendo, não sentia mais nada de dor. Seu corpo todo tremia, mas não estava frio. Se abraçava tentando fazer parar aquela tremedeira e enchugou as lágrimas que corriam pela face.

Passava a mão pelos cabelos, ainda tentando entender o que estava acontecendo , enquanto falava com a voz trêmula:
- Calma, Marcos, foi um sonho. – Disse tentando se convencer – Já passou, foi só um sonho.

Enquanto ele falava consigo mesmo percebeu que estava de pé; estranhou e imediatamente olhou para a sua cama. Lá viu seu corpo deitado, do mesmo jeito que havia ido dormir antes da festa, e junto a sua cabeça o Amigo Espiritual com as mãos sobre sua ela, envolvendo-a com um brilho brando e tênue.

Marcos assustou-se e deu alguns passos para trás, perguntando alto para sí mesmo: Foi só um sonho não foi? – Disse enquanto olhava para baixo e tateava seu corpo – Foi só um sonho. – Não percebeu quando por trás dele o espírito de seu avô apareceu e tranqüilamente respondeu:
- Não, Marquito. Foi mais que um sonho.

Virou-se repentinamente e, sem parar para pensar, atirou-se nos braços do avô como que buscando proteção e auxílio. Este o envolveu carinhosamente e abraçou-o por algum tempo, alisando seus cabelos e suas costas, enquanto repetia: Tudo bem, querido. Tudo bem. Você está comigo agora, se acalme.

Após alguns minutos, que pareceram uma eternidade, Marcos levanta a cabeça e encara o avô.
- É você mesmo, vovô? O senhor não mudou nada.
- Sim, Marquito, sou eu mesmo. E não posso mudar. Mesmo em espírito eu sou o mesmo que você conheceu e que te ama.
- Mas vovô - Disse Marcos se afastando um pouco – o senhor está morto. E eu nunca pude lhe ver, então eu também estou morto?
- Não, Meu filho, você não está morto.
- Então como eu posso ver, falar e até tocar o senhor? – disse Marcos tocando o avô.
- Nós estamos no mundo espiritual, meu filho. Para onde todos vocês encarnados vão quando estão dormindo. Olhe ali. – Disse apontando para a cama onde o Amigo Espiritual se encontrava – Aquele é seu corpo. Meu amigo está envolvendo você com uma energia para que nós possamos estar tendo esta conversa. Nós estamos em algum lugar entre o sonho e a realidade.- E nesse instante Marcos percebeu um cordão fluídico que saia das proximidades do seu umbigo e ia até o seu corpo deitado.
- É meu cordão prateado? – interrogou ao avô
- Sim – respondeu Pascoal – É a ligação entre seu espírito e o seu corpo. Enquanto ele estiver aí seu corpo estará vivo e ligado a você.
- Mas vovô, - interrogou Marcos – Então quer dizer que isto tudo é de verdade?
- Sim, Marcos, tudo é de verdade.
- Então aquilo que eu ví ou sentí, sei lá, foi de verdade ou foi um sonho? – Perguntou meio sem saber como se expressar – Era tudo tão real, eu senti tudo de verdade.
- Aquilo foi mais que um sonho, Marquito, mas ainda não é realidade. Meu amigo veio me ajudar a tentar mostrar a você que ainda é tempo de retornar ao seu caminho, querido. Por isso pedi a ele que projetasse em sua mente o que poderá acontecer se você continuar do jeito que está indo.
- Porque o senhor disse ainda, vovô? – Perguntou Marcos pensativo.
- Porque a decisão é sua, Marquito. Aquilo AINDA – frisando a palavra - não aconteceu, mas pode acontecer.
- Mas se foi um sonho, – perguntou Marcos – quer dizer que aqueles caras não existem, não é mesmo? Quer dizer, o tal Tertuliano e o tal Joca, eles são de mentirinha, né?
- Não Meu filho, infelizmente eles existem. Tudo que você viu ainda não aconteceu, mas não foi inventado. Todos os personagens são pessoas reais; pessoas encarnadas e desencarnadas.
- Então o que ele disse sobre eu ser ...
- O que ele disse, Marquito, - interrompeu o avô – é que você recebeu uma santa dádiva de uma segunda chance, reencarnando nesta terra, meu filho. Lembre-se que não importa quem você foi, e sim quem você é. Não importa o mal que nós fizemos em outra vida, porque o que realmente importa é o bem que podemos fazer nesta, Marquito. E você, meu filho, pode fazer muita coisa ainda. Basta que você decida fazer o que é certo. – falou colocando as mãos sobre os ombros de Marcos.
- Não entendo, vovô...
- Após você desencarnar em sua última encarnação, Marquito, você foi socorrido pelos amigos da colônia Alta Paz; Eles te ajudaram e ensinaram muitas coisas. Lá você aprendeu que o bem cobre o mal, e que o amor cobre os nossos erros, querido. – Marcos olhava para o avô e para o Amigo Espiritual com um respeito e carinho muito grandes. – Lá você trabalhou bastante auxiliando na colônia, estudou muito e conseguiu muitos créditos junto à espiritualidade superior; do mesmo jeito eu, aqui na terra, também como trabalhador espírita consegui muitos créditos com os amigos espirituais, assim, quando você assumiu o compromisso de retornar para a terra e ajudar alguns dos espíritos que você havia prejudicado antes, e, depois da minha morte, tomou algumas decisões erradas, eu pedi auxílio aos espíritos mais evoluídos para tentar trazer você de volta ao caminho certo. Graças ao nosso merecimento, Marcos, eles enviaram o nosso amigo ali.- Disse apontando para o Amigo Espiritual.
- Mas eu não me lembro. – Disse Marcos.
- Isso é normal, querido, nenhum de nós se lembra perfeitamente dos compromissos que assumimos. Mas todos temos dentro de nós um sentido que nos direciona para o que acreditamos,não é? – Marcos concordou com a cabeça – E você estava fazendo um ótimo trabalho até deixar de se importar com seu trabalho em benefício do próximo e passar a se importar mais com a falta que este velho te fez.
- Ah, vovô, mas eu sentí muito sua falta. – Disse o menino.
- Eu sei, Marquito, mas quando você achar que está sofrendo dê uma olhada em todas aquelas pessoas que estão nas ruas com fome, frio e solitárias. Seja o amigo delas, se preocupe com elas, que assim você estará me honrando muito mais do que chorando por mim. Transforme a sua dor, meu filho, em algo de útil para aqueles que sofrem também. Você me entende?
- Sim vovô, eu entendo. Vou tentar fazer isso.
- Assim mesmo, bom rapaz. – Disse Pascoal e abraçou Marcos carinhosamente. Olhando para o Amigo Espiritual percebeu que já estava na hora de partir. Encarou Marcos diretamente nos olhos e disse com muita segurança:
- É hora de eu ir, Marquito.
- Mas vovô...
-Não, filho, não tem mas. – Interrompeu Pascoal. – Eu só posso te dizer uma última coisa, meu filho: Siga o caminho que eu lhe ensinei. Você é jovem, tem toda uma vida pela frente. Não deixe que esta vida seja desperdiçada com álcool, sexo, fumo e outras coisas. Faça a sua vida valer a pena, Marquito. Cresça com ela, ajude as pessoas. Deixe sua marca no mundo menino. Você me entende?
- Sim – disse o rapaz.
- Tudo que você viu não aconteceu ainda, mas pode acontecer. E pode acontecer ainda pior, meu filho. Não deixe que isso aconteça. Cultive as boas amizades, as boas ações, os bons sentimentos. Procure algo que você goste de fazer e faça. Escute os conselhos de sua mãe, porque ela sempre vai querer o melhor pra você, menino.
- E o senhor vovô? Como eu faço pra falar com o senhor? – perguntou Marcos abraçando o avô.
- Eu sempre vou estar com você, Marquito. Sempre vou estar cuidando e protegendo você. Mas eu não posso fazer isso sozinho, você vai me ajudar?
- Vou vovô, eu prometo. – Disse Marcos com resolução. – E vou voltar pro centro, vou auxiliar as pessoas, vou me tornar um trabalhador como o senhor foi.
- Então, meu filho, você vai me encontrar em cada sorriso de gratidão que você olhar, em cada abraço que você receber de um irmão destes mais pequeninos e carentes, sou eu quem estará te abraçando. – E abraçou Marcos fortemente sobre o peito, ambos chorando de alegria. – Eu estarei com você, menino. Mas escute bem: você não vai se lembrar de tudo o que conversamos quando acordar, entende? – Marcos fez que sim com a cabeça – porém eu vou pedir para o nosso amigo deixar o suficiente para que você possa escolher, está bem? – novamente Marcos balançou a cabeça – Porque não importa o quanto as pessoas encarnadas ou desencarnadas influenciem você, meu filho, no final a escolha é sua. Por isso, tome cuidado com as suas escolhas. Agora vai dormir, Deus te abençoe e fique em paz. – Deu um beijo no rosto de Marcos e o acompanhou até a sua cama, onde o seu espírito deitou-se encaixando no seu corpo.

Uma vez mais, sob a ação dos fluidos aplicados pelo Amigo Espiritual, Marcos se sentia sem forças para manter os olhos abertos e deixou a escuridão envolvê-lo, desta vez, porém, ele estava tranqüilo, radiante e alegre. Já sabia o que deveria fazer.


3 comentários:

Dill disse...

Olá JOão, boa noite!
Vi seu blog tá lindo e muito rico. Agora eu pergunto, onde estão os livros para eu baixar?
Bjos

Anônimo disse...

obrigada fiquei comovida e acredito em tudo que li
me ajudou muito obrigada Dalva

Socorro Melo disse...

João,

Que história emocionante, não consigo parar de ler. Uma frase que me tocou muito foi essa: transforme sua dor em algo de últil para aqueles que sofrem também...

Socorro Melo

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