Espaço de Humberto...


Queridos amigos, bom dia!

Inauguramos hoje mais uma sessão deste pequeno blog: "Espaço de Humberto", que é dedicada aos maravilhosos textos ditados ou psicografados pelo Espírito Humberto de Campos, que muitas vezes também assina com o nome de Irmão X.

Uma de suas características mais marcantes é trazer contos e histórias do mundo espiritual que tenham a propriedade de nos fazer calar e refletir profundamente. Muitas vezes seus contos podem, por algumas pessoas, ser considerados sucetíveis de mexer com os brios de determinados espíritas por aí afora.

De minha parte acho os contos espetaculares, até porque sou meio polêmico mesmo. Por este motivo e pela qualidade espiritual de seus textos(entre eles livros como Boa nova, Contos desta e de outra vida, Pontos e contos, Lázaro redivivo, Cartas e crônicas) decidí colocar um espaço para ele aqui no blog. Então, segue o primeiro de muitos logo abaixo.

Muita Paz para vocês.

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T.B.C

Na condição de Espírito, encantamo-nos com certo grupinho de companheiros encarnados que, frequentemente, se reuniam discutindo elevados assuntos do Espiritismo. Leandro, Jonas e Samuel pareciam-nos três apóstolos da Grande Causa.

No decurso de cinquenta meses, encontrei-os, semanalmente, em agradável "tête-à-tête", anotando problemas da Humanidade. Eram apontamentos valiosos à margem do Evangelho, recordações sublimes sobre o Cristo, observações sensatas acerca dos sensitivos que visitavam, altas questões sociais, notícias da mediunidade a repontar-lhes do ambiente doméstico, e impressões próprias de contacto com os Espíritos, através dos sonhos que narravam, felizes...

Tanta simpatia inspiravam-me os três, que não vacilei apontá-los ao meu amigo Cantidio dos Santos, denodado mensageiro da luz entre a nossa pobre moradia, de companheiros dos homens encarnados, e a Esfera Superior.

Não seria justo aproveitar a quem se evidenciava na posse de tanto conhecimento? quem poderia prever a extensão da seara preciosa, capaz de surgir de semelhante conjunto? Cantidio ouviu-me, atencioso, e prometeu providências . Foi assim que conseguiu situar os três amigos, certa noite, num templo espírita, e, no momento aprazado, aí compareceu com Lismundo, respeitável orientador que vinha testar-lhes a decisão.

Senhoreando a engrenagem mediúnica, o emissário, com grave fisionomia temperada por larga dose de entendimento, começou a mensagem que encomendáramos, explanando sobre a magnitude do serviço espírita, que claramente classificou como sendo um privilégio que o Senhor concede às criaturas amadurecidas na idéia do bem. Logo após, entrou diretamente no objetivo, convidando os circunstantes à atividade.

Porque não abraçarem compromissos edificantes no Cristianismo renascente? acaso, não se sentiam prestigiados pela verdade? Jonas, Samuel e Leandro discorreram, brilhantemente, quanto às próprias convicções.

Porque o instrutor lhes estimulasse a exposição dos pontos de vista, falaram longamente das leituras que haviam efetuado. Exaltaram os princípios de Allan Kardec, louvaram as páginas de Denis, desfiaram as pesquisas de Crookes e Âksakof e analisaram as conclusões de Bozzano e Geley com notável mestria.

Ao cabo de duas horas inteiras, em que se derramaram, contentes, no verbo luminoso e estuante, Lismundo lembrou, paciente, o impositivo do trabalho que lhes carreasse os tesouros na direção do próximo. Era preciso rearticular corações doentes e levantar almas caídas...

O benfeitor atacou a nova argumentação, salientando a oportunidade de um agrupamento destinado à sementeira da luz. Uma casa de instrução e consolo, em que os necessitados de orientação e esperança encontrassem apoio moral. Um instituto em que a idéia espírita, através do livro nobre, distribuído com largueza de sentimento, pudesse esparzir renovação e conforto.

Os ouvintes, contudo, qual se fossem surpreendidos por ducha inesperada, entreolharam-se, transidos de susto. Leandro acusou-se pejado de provações, Samuel declarou-se esmagado por lutas da parentela, e Jonas afirmou-se incapaz de responsabilidades maiores.

E enquanto se tornavam monossilábicos e arredios, o embaixador prestimoso indicou vários setores de movimentação apostólica. Santuários espíritas de evangelização, devotamento mediúnico desse ou daquele teor, escolas diversas, hospitais, recolhimentos, creches, berçários e campanhas de benemerência foram alinhados pelo instrutor, durante mais de sessenta minutos consagrados à advertência e à ternura fraterna.

O trio, no entanto, mostrou-se irredutível. Alegou-se a falta de tempo, a incompreensão do mundo, a imperfeição da alma, a perseguição dos Espíritos das trevas, os impedimentos físicos e o martírio familiar.

Quando os convites minuciosos e reiterados podiam ser tomados à conta de imprudência, Lismundo despediu-se. E, novamente conosco, acalmou-me o desapontamento, explicando, bondoso:

— Não se aflija. Estamos à frente de companheiros filiados à T.B.C.; a experiência, contudo, é a mestra de todos... Voltaremos, assim, mais tarde. Dito isso, regressou à sua residência na Vida Maior. Intrigado, perguntei ao amigo que me esperava :

— T.B.C. ? que vem a ser isso? Cantídio respondeu, a sorrir: — T.B.C, representa a sigla da Turma da Boa Conversa, compreende?
Embora agoniado, não pude ocultar o riso franco.

Voltamo-nos, então, instintivamente, para os circunstantes, e os três amigos estavam entranhados de novo em palestra acalorada, comentando a mensagem do orientador de maneira chistosa, como se a palavra "responsabilidade" não existisse.

Irmão X
Psicografia de Francisco Candido Xavier
do livro - Contos desta e de outra vida

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