Perguntas dos amigos...


Queridos amigos, bom dia.

Recebí recentemente de um parceiro nosso, Palmares Espírita, o seguinte comentário, bastante inteligente e compatível com o nosso querido Ramon, a respeito de nossa série "para melhor compreender Jesus":

"Olá, amigo João!

Tenho acompanhado atentamente esta série de artigos. E você não imagina que hoje pela manhã, enquanto caminhava para o trabalho, estava refletindo exatamente sobre esse tema: por que Jesus precisou ser assassinado daquela forma? A responsta veio no vento: pela dureza e incredulidade de nossos corações, como ele próprio havia dito tantas vezes. Mas a complementação da resposta veio através deste seu artigo: de fato, se ele não resurgisse de modo tão marcante, todos os seus ensinamentos provavelmente ficariam sem conseqüências, como aconteceu a diversos outros mensageiros da paz.

Estes seus artigos certamente serão reunidos em um novo livro, não é verdade. E será um trabalho muito útil para ajudar a compreender os detalhes e sutilezas de cada fato narrado nos evangelhos sobre a vida da mais divina personagem da história da humanidade.

Seu comentário a respeito de João haver sido o único evangelista a testemunhar pessoalmente os acontecimentos finais da vida de Jesus me fez lembrar de outras passagens que nem sequer deveriam ter sido narradas, por não haverem sido presenciadas por nenhum de seus discípulos.

As tentações no deserto e o diálogo com a samaritana no poço de Jacó são algumas delas, mas sem dúvida a mais impressionante é a prece final de Jesus no Horto das Oliveiras, onde claramente é narrado que os dois únicos discípulos que o acompanhavam dormiram ao pé do monte, havendo sido advertidos diversas vezes por Jesus sobre a necessidade de vigília e oração. Logo em seguida, Jesus é detido e levado à presença das autoridades, sem que tenha havido tempo dele mesmo narrar suas palavras finais pronunciadas na oração derradeira.

Como então foram narradas com riqueza de detalhes por mais de um evangelista, se nenhuma testemunha houve deste momento terminal?

Claro que nada disso retira ou diminui a beleza daquelas palavras, muito coerentes e dignas de Jesus, especialmente quando coloca a vontade de Deus acima da sua própria.

No entanto, esta expressa ausência de testemunhas, coloca em dúvida precisamente um de seus raros momentos de fragilidade e de dúvida, quando pede a Deus que retirasse dele aquele cálice. Este pedido, além de estar em dasacordo com a plena consciência que ele tinha de sua missão, também parace incompatível com a firmeza e sobriedade com que ele recebeu o séquito de Judas que o veio buscar para prendê-lo.

A idéia de que até mesmo Jesus tenha experimentado sentimentos puramente humanos, como a dúvida e o medo, certamente nos é muito simpática e favorável, pois o coloca mais próximo de nossa realidade. Mas não podemos deixar de considerar também a possibilidade de que esse trecho da narrativa esteja eivado da imaginação dos narradores, que teriam dramatizado a passagem com palavras que consideraram mais adequadas à tensão daquele momento de aflição.

Certamente estes são detalhes cosméticos ante a grandeza de sua doutrina. Mas confesso que não resisti ao exercício de reflexão.

Aquele abraço!"


Ao qual não pude deixar de responder, e segue a resposta para todos poderem acompanhar:

"Grande Ramon,

Antes de tudo desculpe a demora na resposta, mas estive um pouco ocupado nestes últimos dias.

Ao meu simples entender um dos grandes problemas da humanidade nestes últimos séculos vem sendo o fato de se acreditar na "infalibilidade" da Bíblia.

Não desmerecendo este maravilhoso livro que, diga-se de passagem, é a única fonte histórica de referência que temos ao Mestre e seus ensinamentos, mas, nós humanos, temos que discernir entre o "fato" e o "maravilhoso".

Não é de se estranhar que apenas agora, quase 2000 anos depois que o Mestre se foi e quando a humanidade alcança níveis intelectuais muito avançados, tenha podido surgir e se espalhar uma doutrina tão esclarecedora quanto a Espírita.

É necessário que o homem, no caminho de sua evolução, se intelectualize primeiro para então evoluir moralmente. Pois sem o intelecto (pensamento) desenvolvido ele não poderá utilizar suas faculdades para raciocinar entre o certo e errado.

Digo isto porque é patente, para todos vermos, os séculos que passamos dentro de uma visão limitada e arbitrária do que é sagrado e verdadeiro nos ensinamentos evangélicos.

Estivemos, nestes últimos séculos, nas mãos de uns poucos poderosos que direcionaram a fé cristã para onde lhes aprouvia, sem se importar com o verdadeiro sentido das palavras e com a coerência que devia tanger as atividades religiosas, principalmente cristãs.

Sem dúvida um grande número de passagens bíblicas podem, e devem, ser analisadas para que tenhamos uma maior compreensão do imenso papel que Jesus representou e representa em nossas vidas.

Nos primeiros séculos, principalmente, quando ainda era muito tangível a presença do Mestre, com certeza foram preenchidas "lacunas" encontradas nas passagens evangélicas pela "sabedoria popular"; vale a pena lembrar que o primeiro relato escrito veio de Mateus quase trinta anos após o desencarne de Jesus. Então esta tradição oral foi sendo, muito provavelmente, ajustada e completada com o que as pessoas acharam que Jesus teria dito; muito embora, observando com a ótica da análise, seja possível percebermos "medos" e atitudes tipicamente humanas, que não seriam compatíveis com um espírito da iluminação de Jesus, mas que, no contexto geral, não prejudicam a mensagem.

Gosto sempre de lembrar que, dos quatro evangelistas, apenas Mateus e João conheceram diretamente Jesus, enquanto Marcos e Lucas ouviram os relatos de muitos seguidores do Cristo e absorveram uma "sabedoria popular" repleta de situações fantasiadas a respeito de Sua origem, vida, morte e etc (estão aí os evangelhos apócrifos, por exemplo, que contém desde textos maravilhosos até os ridiculamente inventados).

Hoje, graças a evolução das leis humanas e da tolerância religiosa, podemos comentar estas passagens, indicando possíveis falhas e incoerências nos textos bíblicos, sem termos medo de sofrer a morte pela fogueira, tão comum nos séculos passados.

Muito embora estas análises da Bíblia, pelo menos no meu caso, não diminuam minha fé em Cristo ou em seus ensinamentos. Ao contrário disto, me auxilia a "separar o joio do trigo" e a fortalecer a fé em Deus, no Cristo e na caridade, com a utilização do raciocínio e consciência, lembrando o que nos ensina Kardec:

"Fé inabalável é aquela que pode encarar a razão, face a face, em todas as épocas da humanidade", sem medo de questionar os dogmas ou mistérios porque sabe que tudo tem sua explicação e que a verdade está sendo descortinada a pouco e pouco para todos aqueles que a busquem."


Muita Paz


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